quarta-feira, 26 de abril de 2017

Reminiscências do passado




Pensando, pensando e repensando eu disse a mim mesma:

- Nida, que tal fazer uma retrospectiva da sua vida e voltar aos 35 ou 40 anos?! Talvez exista algo para ser lembrado...

Sim, vivendo uma vida cheia de esperanças – mãe feliz, esposa alegre, realizada – eis que se aproxima o meu aniversário. Acostumada a ser presenteada regiamente pelo meu marido querido, com presentes bem escolhidos , carinhosamente escolhidos, eu, esposa mimada (sim, muito mimada) fico à espera  do dia e da hora do meu aniversário! Que alegria! Que felicidade!...

Mas eis que finalmente chega a hora da entrega do tão aguardado “presente”; após beijos e abraços, os votos de augúrios, de perene felicidade... Recebo uma linda caixa envolta em belíssimo papel... Desfaço as fitas vermelhas flamejantes... Abro e vejo um livro em italiano...  de receitas culinárias!

- TALISMANO DELLA FELICITÀ – e que decepção!

Zanguei-me no instante que o vi. Reclamei. Desiludi-me realmente ao me sentir uma mulher que inspirava do meu marido apenas o estômago! Mais nada. Absolutamente nada à sua alma e coração.

Conceitos tolos; conceitos tolos de uma mulher mimada que não soube discernir e ponderar o verdadeiro sentimento o de amor e delicadeza que aquela doação representava.

- Obrigada, marido!

Para minha sorte, eu logo percebi o meu erro e caímos às gargalhadas nos beijando e abraçando, compartilhando com nossa filha este momento hilário da nossa existência em comum.

Agradeço a Deus pela alegria que esta lembrança me proporcionou. 



Até mais, meus leitores! E obrigada!

Nida










NIDA DEL GUERRA FERIOLI (96 anos) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014);  Professora de italiano; Autora dos livros “Vivendo a Vida” e "Le Ricordanze" . Colunista do “Papos de Anjo”, na página literária Boca a Penas (BAP).
É mãe de Eliane, avó de Marcello e Valeria e bisavó de Thais e Maitê.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Homenagem ao João (Baptista da Costa Aguiar)

Cerimônia do Adeus




A morte nos visita e o João foi embora com ela, depois de prolongada tristeza.

De nada adiantaram solicitações de trabalho pelo Facebook, durante os últimos meses: o silêncio fingido acabou por mantê-lo esquecido e doente.

Sebastião, o cunhado Antônio, as irmãs e mais alguns amigos serviram-lhe de conforto; pouco.

João foi um dos melhores amigos e o melhor dos designers, ao menos ao que me consta, por trabalhos desde o primeiro em 1963, ao desenhar a capa do livro de contos “abecedário”, editado 50 anos depois; os desenhos de corpo inteiro do livro de poemas, “Ópera Bufa” (2007) e do ensaio fotográfico, “Desmedida Segurança – a prisão dos réus absolvidos” (2009), inédito; palpitante nas artes do “Dicionário de Direito de Família”, lançado em 2013; no projeto gráfico do coletivo “Sobre Lagartas e Borboletas” (2015) e, por fim, capista de minha narrativa, também inédita: “Brás – fábricas mortas” (2016); por fim, logomarcas do Tubapbooks e do escritório Zago E Lagrasta.

Mas, João era um “Senhor... - em seu receituário de chef de cozinha e barman - ... Prendado”, ao promover regabofes entre amigos à mesa farta ou no “Star City”, nas feijoadas de sábado ou de qualquer dia; reminiscências do “Barquinho” da Av. Santo Amaro, com Dácio Aranha de Arruda Campos e seguidores, nas incontáveis doses de “caipirinhas”.

Desde os idos de 60, é certo, João sempre amou biritar e ser o conversador de excepcional verve e irrepreensível humor.

Maior glória foi receber o primeiro autógrafo da vida de João, em seu livro  Desenho gráfico  que narra a trajetória do Artista, desde as capas, logotipos (Cia. das Letras e seus selos e letrinhas), além da belíssima campanha publicitária de Luiza Erundina, Prefeita de São Paulo etc. 

João não tergiversava: em tudo ele era aquilo, aquilo mesmo que ele contava, seja no contato, na família ou na política, sem arredar unha de convicções ou teimosias e no amor aos netos.

Vai-se o amigo João e choram rimas - ainda que contra sua vontade - de que tudo continue numa grande festa no céu, ou no primeiro balcão em que ele ancorar aos bebericos e espalhar, estrepitoso, gargalhadas.

Saudade imensa, é tudo...

Caetano Lagrasta






  

    

terça-feira, 4 de abril de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS com NEUZA LADEIRA


Neuza Ladeira nascida em Belo Horizonte, artista plástica, aquarelista apurada, poeta. Casada, mãe de duas filhas. Amante das artes e das montanhas. Autora de Opúsculos e Poética Caderno 1. Autodidata, estuda Foucaut e Schopenhaeur. Integra como Fundadora o Movimento Poesia na Praça,na Pampulha, em Belo Horizonte, MG,Brasil. Ilustra vários livros de poesia para o selo Anomelivros e outros também seus. Realizou várias exposições inidviduais de telas correlacionadas à sua Poesia. Ainda muito jovem, Neuza lutou pelas liberdades democráticas. Foi prisioneira política de 1970 à 1972 em quatro estados brasileiros, na época da Ditadura militar. Sua experiência de vida reflete-se sobremaneira em seus versos

Links:



Sou eu uma bomba

Lapidada
Em um aparelho
De cabeça para baixo
Mãos e pés amarrados
Sou eu uma bomba
Aniquilada pelo inimigo
Que insiste
Em matar o que não morre

Sou eu uma bomba
Solta na vida
Tendo que sobreviver
Num mundo hostil

Sou eu uma bomba
Explodindo na palavra
Uma pólvora fugaz


NL






BAP1: Quando surgiu a arte em sua vida?

Neuza Ladeira: Desde que nasci fui rodeada de arte. Fui para o Rio de Janeiro e tomei um chá de modernidade. Nasci com os olhos embaçados, quatro graus de miopia, os detalhes inexistiam para mim. As personas eram imagens surreais. Então imaginava; montava a cena e ali estava a pintura. Eram quadros singulares, como uma fotografia guardada. Até hoje me lembro de não enxergar o A, E, I, O, U. Dirce, a professora, observou a deficiência e foi à casa de meus pais dizendo: “Levem esta menina ao oculista”. Minha vida mudou aos dez anos quando usei o meu primeiro óculos, vi tudo geométrico. Espaço e forma me laçaram. Nessa época desenhei muito. Depois me encantei com a poesia, decorava poemas. Um deles, em francês, eu declamava no colégio. Arrumei um diário e escrevia minhas intenções. Fui criada com pessoas inteligentes, modernas leitoras. Tinha um mundo só meu onde aprendi o que uma mulher devia saber. Mas fiquei tímida diante dos meus dons por longos anos.

BAP2: O início: literatura ou artes plásticas? De qual maneira uma arte alimenta a outra na sua engrenagem?

NL: Sempre fui fascinada pela literatura. Sempre amei as palavras, a sua integração, a dedução, o instante da inspiração. A pintura surgiu na infância, mas ficou adormecida. A poesia veio primeiro e eu nunca desisti. Uma intuiu a outra.

BAP3: Fale de seu primeiro livro ´Opúsculos´, de como ele surgiu e de sua temática.

NL: “Opúsculos ” é um livro de poemas com versos livres. Minha linguagem dos opúsculos cumpre sua real função. Une epifania e condução mágica das palavras. Este livro foi a expressão que dei às minhas impressões, trilhando pensamento seguido das premissas do verso. Foi o melhor lançamento de livro já visto com umas quatrocentas pessoas. Paguei o livro no lançamento e ficou lindo! Todos os poetas declamaram. Tivemos música, acordeon, dança. Foi um mágico sarau.


BAP4: Você sofreu as consequência da Ditadura no Brasil. Foi presa e torturada. Fique à vontade para contar como tudo começou.

NL: Por uma ideologia na qual acreditava, vi a coisa mais feia do mundo que é homem ferindo homem. Na prisão, seres violentos massacravam, matavam todos que sequestravam. Fui torturada pelo violento Delegado Fleury. Ele me bateu e me pressionou tanto que implodi.

BAP5: Arte e resistência podem chegar a ser sinônimos?

NL: Para mim, a arte é a mais notória resistência. Homem mais comum, integrado ao comum, ao vagabundo. Ela está aí resistindo ao tempo em sua atualidade. Sim, arte e resistência são sinônimos.

BAP6: A prisão e a tortura podem se constituir numa forma de arte que não seja engajada?

NL: Arte em toda a sua dimensão pode e deve estar engajada. Tortura é crime. Temos que denunciar.

BAP7: Qual o olhar da Neuza de hoje sobre a poesia social e revolucionária do século XX?

NL: Vivi em uma época na qual a arte denunciava através de músicas, poesias, pintura etc. Chico Buarque e tantos outros, com sua arte consciente e poética revolucionaram. Era uma época de boca calada e o murmúrio era a poesia. Canções como “Caminhando e Cantado” de Vandré estavam inseridas naquele contexto. O teatro participativo, com peças como “Liberdade, liberdade”, “Morte e vida Severina” e tantas outras cumpriam seu papel no país e pelo mundo. Músicos implodiam com suas músicas carregadas de poesia e denúncia. A poesia do século XX foi muito participativa.

BAP8: Você é apreciadora da natureza, artista plástica, poeta e leitora. Fale de suas leituras preferidas, como por exemplo, a filosofia.

NL: A seguir, listo alguns livros que li e gostei. Há muitos outros, mas destaco esses. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes \ André Comte-Sponville Schopenhauer \ Decifrando o enigma do mundo \ Marie-José Pernin Nietzsche \ Vontade de Potência \ O Poder do Mito \ Joseph Campbell Cem anos de solidão\ Gabriel García Márques A companhia dos Filósofos \ Roger-Pol Droit Antologia de Fernando Pessoa.




__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli


terça-feira, 28 de março de 2017

Para ser feliz


Hoje eu gostaria de falar somente com os meus queridos amigos que já passaram dos 90 anos há algum tempo.

Que felicidade, digo eu, por estar podendo ainda transmitir “modestamente” as minhas opiniões e o meu modo de pensar.

E assim sendo, eu me pergunto: por que continuo vivendo cheia de esperança, trabalhando, procurando alegrar aqueles que me rodeiam, sempre pronta para ficar atualizada diante das coisas importantes da vida?

Eu seria muito pretensiosa se tivesse certeza da resposta a esta, para mim, tão interessante pergunta?... Talvez a resposta esteja com um médico ou com  uma pessoa mais espiritualizada, ou ainda, com um estudioso da filosofia... Mas deixa para lá! Vou ficar com a minha certeza: para ser feliz é preciso reconhecer o que somos: simplesmente pessoas que viram o tempo passar e aproveitaram dele (tempo) para viver muito bem o que passou. Para ser feliz, é preciso continuar vivendo e aproveitando os dias com as suas alegrias e tristezas, procurando realizar uma vida que nos proporcione satisfação interior e ao mesmo tempo agrade a todos que estão ao nosso lado.

E é isso, queridíssimos parceiros desta linda jornada: para obter isto tudo precisamos não desanimar ante os percalços da vida, mas enfrentá-lo,  mostrando a nossa força e a nossa coragem. Assim continuamos vivendo a vida com otimismo, certos de que amanhã será um novo dia.

Beijos e abraços da vossa contemporânea,


Nida


NIDA DEL GUERRA FERIOLI (96 anos) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014);  Professora de italiano; Autora dos livros “Vivendo a Vida” e "Le Ricordanze" . Colunista do “Papos de Anjo”, na página literária Boca a Penas (BAP).
É mãe de Eliane, avó de Marcello e Valeria e bisavó de Thais e Maitê.

domingo, 26 de março de 2017

Porque aqui: tudo acontece




Antes de eu lhe pronunciar o nome
Ele não era
Mais que um simples gesto
A Flor, kim Tchun-su


Reflito sobre sua escolha, enquanto me preparo para prefaciar este livro de poemas. Ela ainda não sabe, mas enquanto folheio suas páginas, busco pela Virginia. Aquela. Um pouco da que eu já encontrei pelas ruas de São Paulo... A Virginia do próprio passado...  Ou a outra, em seus comentário-armadilhas de posts no Facebook.

Nessa hipótese de leitura, eu me desassossego; em seu livro, a Virginia que nasce de palavras em verso são muitas (“... tida como autista, disléxica/ traduzia diferente o mundo/ de maneira poética”). vi e/ou vi é feito de inúmeras possibilidades que, somadas, se transformam em experiências de linguagem diversas.

Armada com o melhor dom, a autora lança ironia para desconstruir o óbvio. A poesia em que “importa menos/o hiato da sílaba”, transita com inteligência pela desordem e se arrisca, entre a dor e o humor, até encontrar na voz feminina, seu coro de resistência. A vida - encarada de frente.

Hoje eu acordo/ com aquela tontura/da dispersão”... “e então eu fico bem/endireito a postura/e finjo que sei tudo de cor”.

Por saber que não existe melhor oportunidade, desfruto nestas páginas dos mistérios do verbo, do feitiço das bruxas, suas diabruras: “anjo que é anjo, flutua/eu só aprendo quando despenco/de grandes alturas”.

Mulher só chora... dizem. Virginia é o desmentido. Em tudo eu/ tudo elas/tudo nós, o lamento ganha com a distância do estranhamento: “não se tira de letra, com sorte, certa passagem, certa carência/ no amor e na arte, uma essência/ amar-te na morte”.

Nesta aflição, a poeta aumenta o torque:

no interior
vivia Berta, a puta, que no bordel
exalava certa fragrância de ausência
e as ignorâncias gozavam:
"vai lá com a Berta!"
e no sacolejar
enquanto seu íntimo era vasculhado
sua alma escapava do corpo
e um dia ele se foi atrás dela pela janela
do último [an]dar

Há, nesta última parte, um esgar de consciência, uma ressaca de fim da festa – porque é assim que a vida acontece: com seus humores/amores/dores/nomes/dissabores...   

minha labuta é em silêncio
quase uma clandestinidade

A poesia de Virginia é só dela. Sem ancoragem, sem demora, porque “não há espaço para ocupação”...  Ainda assim, ao prefaciar seu livro, eu me abasteço de água fresca: copo sobre pedra escaldante.

Fim.

Adriana Aneli  


sexta-feira, 3 de março de 2017

Não deixe o samba morrer...


A recente obra de Lira Neto, em seu primeiro tomo: “Uma história do Samba – as origens”, não esconde a vasta bibliografia e o excelente trabalho de pesquisa, a trazer consigo a mensagem de preocupação, mudança e otimismo – como irreverência – que à festa condiz.

Dispensado de enaltecer o estilo e demais atributos de obra de fôlego, há que relevar a narrativa dedicada a Noel Rosa, em suas implicações e submissão imposta por Almirante, quando participante do Bando dos Tangarás, além da descrição irrepreensível e contida da morte de Sinhô. Outras e muitas cenas mereceriam destaque, mas ambas se mostram suficientes para indicar o escritor e o trajetória árdua de Autor.

Quem dele conhece a biografia “Getúlio”, igualmente, dispensa maiores elogios e comentários.

Acresce, ao cabo, que a leitura durante o feriado de Carnaval, coincide com as mudanças alvissareiras impostas ao de 2017, a parecer que todos, carnavalescos, bloquistas, escolares do samba, foliões, rufiões, polícias e prefeituras, além de tudo e mais o restante, coincidem com a fala de Lira e o retorno do Carnaval às suas origens populares. E, desta forma, a se escapar ao confinamento imposto a mais esta Festa popular, por um inescondível domínio midiático daquilo que se convencionou chamar de “grande imprensa”.

O Carnaval retoma suas origens de alegria, devassidão, excessos e quejandos, como deve e como sempre foi e será; finalmente, o povo se liberta da escravidão dos vídeos e das cordas e invade cidades, às vezes, até, esparramando sem licenças o conteúdo de mictórios químicos.

O momento não pode ser melhor, quando atravessa o país mais uma crise de governança, corrupção, obscurantismo e incapacidades diariamente postas a nu – como ao seu rei e seus acólitos – expoentes de sem-vergonhices condizentes ao fim de qualquer império.

Voltam os foliões, fantasias e máscaras ao deslumbramento e à veracidade que, às caras-limpas, não conseguem escapar os colarinhos sujos e os punhos puídos.

Ô abre-alas que eu quero passar!

Caetano Lagrasta


quinta-feira, 2 de março de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS com VALÉRIA TARELHO


Valéria Tarelho, natural de Santos/SP (1962), residente em São José dos Campos/SP, separou-se da advocacia devido a um caso com a poesia. Seus primeiros escritos datam de abril de 2002.
Publica no Livro da Tribo, desde a ed. 2004, tem poemas em livros didáticos do ensino fundamental e ensino médio, antologias, poemas musicados e encenados no projeto Poeta em Cena, 2009, da Casa das Rosas. Escreve no site "escritoras suicidas" (http://www.escritorassuicidas.com.br), em seu blog pessoal, "textura" ( http://valeriatarelho.blogspot.com ).
É autora de “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”, Ed. Penalux, 2016, mãe de quatro, esposa de um, avó em exercício, advogada em extinção. Quando crescer, quer ser poeta.





entre o sol e a solidão
amores chegam
e saem
amores cegam
e sabem
semear
o que impressiona
ser
o que impulsiona
são degraus
na escuridão
amores
sempre serão
míticos
egoísticos
apocalípticos
ego & psique
narciso & eco
apolo & jacinto
céu & chão 

Valéria Tarelho,
em “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”,
pgs. 18/19, Ed. Penalux, 2016






BAP1: O que a motivou a ´se divorciar da advocacia´ e ´casar com a poesia´? Foi uma decisão repentina ou está ideia já existia antes?

Valéria Tarelho: Na verdade, eu jamais cogitei escrever algo além das minhas petições. A própria leitura era voltada para livros jurídicos e afins. E não posso culpar a falta de tempo, simplesmente não havia interesse. A poesia passou por mim aos 18 anos, quando ganhei uma antologia de poemas de Vinicius de Moraes. Gostei, lembro que fiz diversos grifos, mas não me aprofundei em leituras, gostava mais de cantarolar Vinícius, do que ler seus poemas. A segunda vez foi através de um livro de literatura do Anglo, onde fui apresentada a Gregório de Matos e Camões (entre outros que não recordo), mas ficou apenas o registro mnemônico de algo agradável. Fui conhecer autores como Leminski, Cacaso, Alice Ruiz, quando ganhei uma agenda da Tribo (1997) e me encantei, sem sequer imaginar ou ter a pretensão de escrever e publicar na agenda que, futuramente, seria o maior e melhor veículo de divulgação do que se tornou um compromisso de fidelidade com a minha existência: escrever poemas.
O caso e posterior casamento com a poesia aconteceu repentinamente. Em 1999 mudei de cidade e fechei meu escritório, passando a advogar esporadicamente. Em 2000 nasceu meu quarto filho e dediquei-me integralmente a ele, até que em 2002 ele foi para a escolinha e fiquei “caçando” o que fazer, comecei a fazer alguns layouts para sites e criei um próprio, de envio de mensagens. Começou aí uma busca incessante por autores para publicar no site e fui me fascinando com esse universo, até então, nebuloso. Não houve nem tempo para flerte, foi namoro sério e casamento relâmpago, quando percebi eu já estava rabiscando uns versos sem técnica alguma ou conhecimento (minha leitura mal alcançava os poetas contemporâneos, imagine os clássicos, ou seja: bagagem zero que desencadeou em uma escrita intuitiva).


BAP2: Seus primeiros escritos datam de abril de 2002. A internet a influenciou, ou os primeiros poemas não foram publicados na rede? 

VT: Sim, a Internet teve total papel de cupido nesse meu relacionamento com a poesia. Assim que me envolvi com os textos de autorias diversas, fui invadida por uma necessidade de me expressar não somente através do olhar do outro, eu precisava gerar meus próprios filhos.
Passei a frequentar grupos de poesia no Yahoo (Gaiola Aberta, Poetas Urbanos, Orpheu, etc...), divulgar poemas na Usina de Letras, blogue pessoal, até que em 2004 tive dois poemas publicados na agenda dos sonhos, o Livro da Tribo, onde me publicam desde então. Foi a primeira vez que vi meus versos impressos no papel , e experimentei a inusitada sensação de que havia algo de valor naquela “brincadeira”.
No fim de 2004 conheci Frederico Barbosa, que foi o maior divulgador do trabalho que eu, timidamente, vinha apresentando (e ainda considerava um hobby). O Fred inseriu poemas meus em suas apresentações no Itaú Cultural, levou-me ao centro do “furacão”, onde a poesia fervilhava em São Paulo, divulgou-me em palestras, entrevistas e onde quer que fosse falar de poesia, especialmente a poesia divulgada pela Internet. Sou especialmente grata a ele pelo impulso que deu ao meu nome no meio literário, cujo ápice, considero a dramatização de meus poemas em 2009, no projeto Poeta em Cena, que ocorreu na Casa das Rosas.
No meio desse trajeto, aconteceram outros felizes encontros como publicação em revistas literárias (Germina, por exemplo), parcerias musicais, publicação em livros didáticos, o grato convite para escrever no site Escritoras Suicidas, e posterior antologia (Dedo de Moça). “Trair e coçar, é só começar”, de fato! A partir do momento em que traí o Direito e o abandonei, não houve um instante sequer de pausa ou paz, porque poesia é um constante estado de alerta e de transbordamento.


BAP3: Como você definiria sua poesia? Se preferir, responda com um poema.

VT: Deixo para os que entendem do assunto essa definição, pois realmente não sei “rotular” o estilo (ou falta de). Sou apaixonada pela palavra e suas múltiplas facetas, amo brincar com jogos de sonoridade, neologismos, já fiz muito uso de estrangeirismos, mas não sei definir esse tipo de escrita (que, muitas vezes, fica mais explícita no papel, do que ao ser declamada). Há um poema que foi publicado em 2015 no livro didático Vozes do Mundo, Ed. Saraiva, do terceiro ano do Ensino Médio, em que falo dessa liberdade de escrita, de voos cegos , que transcrevo abaixo. Detalhe: o voo é tão às cegas, que não sei responder às questões formuladas no livro (risos envergonhados)

livre para voar

quanto mais penso
mais propensa fico
a cometer lapsos
então disperso
dispenso o caso pensado
preencho o poema
com passos errados
traçados em labirinto
sobre linha tirolesa
um porre de letras bêbadas
invadindo o espaço
rindo alto
do abismo
ao salto

VT

Este outro, abaixo, toca mais no lado do gosto pessoal, pois considero que minha escrita não é unanimidade (como nada neste mundo é, graças aos céus ou infernos) em termos de aceitação pela grande massa:

mal ditos 

exercito a língua
excito o verso
exorcizo a rima
- práticas nem
sempre exatas
meus poemas têm
espí
rito
de poucos –

VT

BAP4: “Poetas não leem poetas.” Esta afirmação, para você, é verdadeira?

VT: Eu não me reconheço, enquanto poeta, sem que a leitura (e até escrita, pois muitas vezes sou instigada a cometer “diálogos”) fosse outra que não a de meus pares. E, como pares, me refiro aos autores que estão no mesmo barco, alguns à deriva, outros no rumo, nas águas mansas ou turbulentas da poesia. A maioria dos livros de poemas de minha estante são de poetas contemporâneos , mas de uma contemporaneidade e atuação semelhantes à minha. Quase todos conhecidos através dos blogs e redes sociais. Sinto o maior prazer quando posso comparecer a lançamentos de livros e me alegro com suas conquistas, como se fosse comigo. E não deixa de ser, pois a poesia obtendo o mínimo destaque, é motivo de satisfação pessoal, por vê-la valorizada.

BAP5: Você passou por momentos muito delicados de saúde. Esta experiência deixou rastros conscientes na sua poesia? Quer trazer um poema que aborde esta temática?

VT: Em 2013 descobri um câncer de mama, passei por cirurgia, quimioterapia, radioterapia e atualmente me encontro em tratamento (hormonioterapia), mas apenas para diminuir as chances de recidiva. Tive sorte de detectar a neoplasia logo no início, mas é sempre um susto e , a princípio, perdi o chão, mas logo me apoiei no que considero um grande trunfo nessas ocasiões: o bom humor. Ri de minhas “zicas”, escrevi ironizando várias situações e isso me manteve forte no decorrer do tratamento, que é extremamente invasivo. Não creio que exista um rastro ou que o câncer tenha sido um marco na minha escrita, abordei o assunto, mas não senti que houve esse tipo de “sequela”. Passeando por meu blog no período de outubro de 2013 em diante, poucos foram os poemas que encontrei que remetiam ao fato. Pessoalmente sim, aconteceu uma reviravolta interior, diria até que um renascimento, pois passei a valorizar mais a vida e me certifiquei que não é só com o vizinho que o mal acontece. Sou mortal, veja só, jurava que não! Também passei a usar de minha experiência para auxiliar quem está passando pelo mesmo problema, seja orientando, doando lenços, ensinando a “pentear” os novos cabelos de pano, com lindas amarrações e o que mais estiver ao meu alcance.
 

O poema a seguir relata uma fase em que eu fazia diversos exames de imagens e de muitos medicamentos:

posologia

a poesia
precisa
de pausa
em drágeas
a loucura
procura
uma paz
mais líquida
tem dias
que sou
- subcutânea -
e dias
de pura
ira
intrave[ne]nosa
rasgo
a rima


VT

BAP6: Existe uma tendência a criticar certos temas na poesia contemporânea (amor, céu, estrelas, lua, borboletas, etc.) como sendo um clichê. Como você vê isso?

VT: Vejo, então, que sou clichê, segundo a crítica. Falo de amor, quase que de uma forma “monotemática”. Meu livro “O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP” aborda os amores mal resolvidos, platônicos, proibidos, enfim, amores que por algum motivo, não habitam o sentimento em si. Falo muito de flor, das nuances do céu, tenho poemas em calendário lunar, poemas onde “eustrela / youniverso” reinam e as borboletas do estômago são as coisinhas mais lindas!
Que venham as críticas, porque enquanto a poesia acontecer como manifestação do “olhar”, absorção celular, encantamento, estranheza, incômodo ou qualquer causa que gere o efeito poema, irei abordar o tema e espero que outros autores também sigam a sua tendência.


Citando o Poeta:

"Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras.
Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto.
Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia.
Celebrar moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo.
Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa.
Poesia não presta para demonstrar nada.
Ela só presta para dar néctar." 


Manoel de Barros em entrevista a Douglas Diegues.
— Silêncios, nadas e borboletas. Uma entrevista de Manoel de Barros a Douglas Diegues. Prólogo de Wilson Bueno. Edição de Walther Castelli Júnior, Campinas, SP; 1997)

BAP7: Na sua opinião, o que falta para a leitura de livros de poesia ficar mais presente nas escolas?

VT: Em 2005 e 2006 participei do Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves-RS, especialmente no projeto do autor em sala de aula e acredito que se tal ideia fosse levada às escolas em geral, haveria mais interesse na leitura dos livros de poemas. Apresentar autores que falam a mesma língua da juventude também aproxima o aluno desse tipo de leitura que muitas vezes pode parecer maçante pela forma que o tema é abordado. A publicação em livros didáticos, de autores da atualidade é um fator relativamente novo, lembro que só li autores mortos em meus tempos de escola. Creio que essa mentalidade está mudando e que essa mudança só agrega benefícios tanto para quem escreve, quanto para quem lê.

BAP8: Como surgiu o livro „O AMOR nem sempre tem o mesmo CEP”? Fale um pouco do projeto à publicação.

VT: Como tudo que faço nesta vida, o livro surgiu sem muito planejamento, aliás, foi no atropelo que tudo foi acontecendo porque tive problemas de saúde na família, depois me submeti a uma cirurgia e não pude me dedicar ao livro como gostaria.
Os meus queridos editores Tonho França e Wilson Gorj há muito que tinham intenção de me publicar, mas eu tinha um contrato com outra editora desde 2012, de um livro intitulado Sol a Cio que (desconheço o motivo) não foi publicado. Graças à insistência e paciência de Tonho França, acabei aceitando a oferta e passei a selecionar poemas nessa linha dos (des)amores, assim que decidimos o título. A Penalux foi uma mãe para mim, desembaraçando todos os meus nós e carregando no colo esse projeto. Como eu vivia no hospital acompanhando sogro e sogra adoentados, a seleção dos poemas ficou a cargo da editora, só palpitei nas cores da capa (linda) criada pela Patricia Paulozi, mas devo a eles a realização desse sonho. O primeiro livro, aos 54 anos, é mais que um filho, já nasceu sendo um neto mais que amado. O livro tem prefácio de Múcio Góes e orelha por Sidnei Olívio, poetas queridos e admirados, dos quais sou tiete. Pense em uma felicidade!




__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli