segunda-feira, 5 de junho de 2017

O sol que fraqueja


RESENHA de Paulo Bentancur (in memorian)




escorrego
viscosa fruta
decompõe
daqui vejo asas em formação
remota palavra
presa nos dentes.



O sol da tarde, de Adriana Aneli, é um livro que escapa, com movimentos lentos, mas densos (tensos), das diversas tendências da poesia contemporânea brasileira. Tem, a provar sua singularidade, uma atmosfera imersa em silêncio, em gestos que ora provam o imenso desafio do amor, ora provam que ele está à prova.

O corpo da protagonista (que só protagoniza em si mesma aquilo que para o compartilhamento sempre terá muito de segredo) vive a sensorialidade plena de um desejo imerso na hesitação.

Inquieta, no entanto paralisa seus gestos para assim dar-se na hora que é chegada. Essa hora parece não vir nunca. A réstia de sol, fresta de luz que não se distancia de um frio metafórico e nem por isso menos real, anuncia que as possibilidades ainda não se acabaram. Mas trata-se de um querer onde há medo e nesse medo há mais querer. Cada poema parece seguir ao outro, e assim tal lírica revela-se no conjunto completo do livro, e não só poema a poema. Embora, claro, cada poema é um artefato em si, escrito num ritmo sussurrado – e atônito.

Sintética, elíptica, a poeta mostra-se numa sintaxe capaz de chegar ao estranhamento, esse efeito capaz de causar no leitor uma espécie de grave encantamento. Grave no sentido de profundo, porque quase verso a verso temos uma cena que sobretudo aqui nega-se a qualquer evidência.

O leitor que a busque no poema. Embora ainda seja cedo, eu ousaria afirmar sobre seus versos expressões como “singular”, “inusitados”, “dicção imprevisível”, “sintaxe entre um intimismo inconfessável e um desmoronamento do discurso” e “poema em fuga”. 

O livro conta uma história, e é dividido em duas partes, cada uma associada à sua epígrafe. Num dos poemas (“mas quando vem”), a esquecida e enlouquecida Camille Claudel é personagem que poderia assumir o discurso poético, amoroso. O desfecho traz à tona um desespero inconsciente, rindo mesmo frente à iminência do risco.

Alquimia entre a transpiração (o suor emocional) e o gozo, numa dicção que jamais a torna explícita, o projeto é extremamente ousado e de uma delicadeza única.


Paulo Bentancur.... em dezembro de 2014.


Leia gratuitamente o livro aqui.

domingo, 28 de maio de 2017

A força da imaginação



Que céu lindo! Azul, com pequeninas nuvens brancas! Este é o céu que estou admirando; está completando a visão maravilhosa que estou contemplando: as belíssimas praias do nordeste,
Aqui estou eu, feliz com o meu coração cheio de alegria e bem estar!

Alguém me pergunta:

- Mas você está na praia?

Não, meus queridos: eu não estou na praia, mas a minha imaginação voa e atinge exatamente o que eu gostaria de presenciar. E acredito nisto, meus leitores. 

Mas não se se aborreçam por não conseguir estar em algum outro lugar ou realizar algo que sempre almejaram; para conseguir, é preciso parar. Pensar. Usar a sua imaginação para que todos os sentimentos  o levem aonde você deseja estar. Experimente esta maravilhosa sensação que a força da sua mente lhe permite realizar!

E assim, fazer viagens, ir a belas festas, ver sua própria vida com outras mil perspectivas; o poder de transformar um dia comum, sem graça, aborrecido, em outro dia: iluminado, alegre, cheio de visões riquíssimas que lhe permitam sentir-se feliz.

Como eu me sinto bem, por conseguir, uma vez ou outra, intercalar imaginação e realidade, nesta vida que nem sempre nos é benéfica...

Vivam a vida, meus queridos amigos, com otimismo e alegria!


Nida


NIDA DEL GUERRA FERIOLI (96 anos) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014);  Professora de italiano; Autora dos livros “Vivendo a Vida” e "Le Ricordanze" . Colunista do “Papos de Anjo”, na página literária Boca a Penas (BAP).
É mãe de Eliane, avó de Marcello e Valeria e bisavó de Thais e Maitê.

terça-feira, 2 de maio de 2017

OITO PERGUNTAS A PENAS com NORMA DE SOUZA LOPES


Norma de Souza Lopes nasceu ano de 1971, na periferia de Belo Horizonte onde vive até hoje. Filha de mãe gari e pai pedreiro, foi doméstica até que um milagre atribuído a bons professores levou a tornar-se professora e escritora. Publica em http://normadaeducacao.blogspot.com.br/ desde 2008. Em 2014 lançou seu primeiro livro de poesia chamado "Borda" pela editora Patuá. É escritora Efetiva da Revista Escritoras Suicidas. Participou das antologias "Versos da Violência" da Editora Patuá, "Sobre Lagartas e Borboletas" da Editora Tubap Books (e-book) e Scenarium Livros Artesanais (versão impressa), Senhoras Obscenas da Editora Benfazeja e de diversas publicações virtuais (Germina, Escritoras Suicidas, Mallarmagens, InComunidades, Vida Secreta - artigo "Clarice e o outro em si em dois contos").


a frota do novo homem

vejam irmãs,  quem aporta agora no cais
aspirem para dentro de seus pulmões as embarcações
naufragadas em sítios fora do mapa

irmãs, sei que andamos cansadas de sermos árvores
e galhos para esses filhos mamíferos cinquentenários
nossos joelhos dormentes de tanto levar ao colo amantes

mas alegrem-se oh, minhas quatro amadas irmãs
eis que ele chega, prenhe mas ainda não nascido
traz entre os dedos vínculo, intuição e benevolência 
aquele a quem chamamos homem, o signo de uma raça

é tempo de lançar nossos olhos ao norte
e sorrir para a  grande alegria que nos espera
um tempo em que as mãos nos representarão
e mãos irmãs, não possuem sexo.

NSL


BAP1: Você atribuiu “a um milagre de bons professores” ter se tornado professora e escritora. Como isso se deu exatamente? 

Norma de Souza Lopes: Não poderia dizer que tive capital cultural em minha família. Minha mãe e meu pai são muito inteligentes mas pouco conheciam  de literatura, arte, poesia ou mesmo de politica. O primeiro contato que tive com as estéticas dessas áreas foram na escola. Alguns professores foram fundamentais para formar em mim o gosto pelo conhecimento e pela literatura. Sem o trabalho deles eu provavelmente teria continuado sem instrução, trabalhando como empregada doméstica, profissão que comecei a exercer aos quatorze anos. Tive professores apaixonantes e apaixonados e acredito que isso foi essencial para que eu viesse a escrever depois. 

BAP2: O que nasceu primeiro; a Norma professora ou escritora? 

NSL: Foi uma longa caminhada. Nos idos de 1993, terminando o Ensino Médio, um professor de História, naquela época também diretor do Arquivo Público Mineiro, me motivou com o seguinte convite. “Se você for aprovada na UFMG consigo para você uma bolsa de estágio no APM”. Ora, para mim que era empregada doméstica e assalariada aquela era uma grande oportunidade e eu a agarrei. Em 1994 fui aprovada no curso de Pedagogia da UFMG e no final dos anos noventa já era Analista da Educação na Secretaria de Estado. O trabalho burocrático não me satisfazia e eu acabei migrando para escolas públicas como Orientadora Educacional e depois como professora de Língua Portuguesa, lugar  de maior possibilidades criativas. A escrita nesse processo estava mais relacionada com o planejamento do trabalho que com a produção literária. No entanto em 2007, em decorrência de um adoecimento mental, passei a usar a escrita para expressar minhas dores e dificuldades, criei o blog Norma Din e, despertada pela poesia, quis saber mais e transformar a minha escrita em algo de qualidade. E é o que tenho feito nos últimos dez anos. 

BAP3: Saraus Literários. Temos poucos ou precisamos de mais eventos/novas ideias para incentivar a literatura no Brasil? 

NSL: Os Saraus literários são um fenômeno maravilhoso que fazem o trabalho de tirar a poesia das estantes e levá-las para os espaços públicos, para as ruas e bares. Poucas são as pesquisas acerca da quantidade e da qualidade de saraus que existem nos centros urbanos. Ainda é incipientes sua presença nas cidades de interior.  Também são insipientes as interconexões entre eles mas com certeza é um caminho sem volta. Eles chegaram para ficar e vem gerando apaixonados por poesia em todo lugar. Aqui em BH os temos para todos os gostos: sofisticados, domésticos, de periferia, de rua, de gênero, ligados a eventos musicais etc. São às vezes eventos que coadunam com os movimento occupy do mundo todo, que trazem à tona a velha  rhyme and poetry, um dos cinco pilares fundamentais da cultura hip hop. Em decorrência das redes sociais eles vem se tornando eventos cada vez mais frequentados, com suas variações de Slams, duelos etc. e apesar do grande número de eventos, acredito que ainda vão aumentar.

BAP4: Como professora, o que você aconselha aos pais para incentivar mais a leitura das crianças e adolescentes?

NSL: A fala é sempre a mesma: “leia para seus filhos”, “”deem livros de presente”, “leiam diante de seus filhos”, “motivem a leitura”, “se interessem pelo que seus filhos estão lendo”... São comportamentos simples mas fundamentais para a formação do leitor. Temos um trabalho consistente na escola onde trabalho. Para nós a leitura é fundamental e isso atravessa todo o nosso fazer pedagógico. Isso, somado ao trabalho da família, vem formando uma geração de crianças e adolescentes leitores. Isso é muito gratificante.

BAP5: Fale do seu livro de poesia Borda. Como nasceu a ideia e se desenvolveu o projeto? Como foi o feedback depois do lançamento?

NSL: Comecei a escrever em 2007, num caderno azul de capa dura que meu marido me deu durante uma internação de dois meses num hospital psiquiátrico. Era só catarse, agora vai ser livro. É ou não é um excelente caminho? BORDA foi finalizado em 2012. São poemas escritos desde 2007. O primeiro contrato de edição, dezembro de 2012, fracassou alguns meses depois e eu pensei em desistir mas, a conselho de Mariana Botelho, poeta, fotógrafa e minha amiga, procurei Eduardo Lacerda da Editora Patuá e ele de pronto decidiu publicar o livro.
Em BORDA, é possível ouvir como a turbulência do "eu mulher" ressoa em mim. Não estou no mundo como mulher impunemente. Desde a infância a rejeição ao lugar de "menos que os homens", ao qual eu nasci destinada, instalou em mim uma guerra na busca da autoafirmação. Os esforços de libertação do corpo e da mente nem sempre foram bem-vindos entre minha família e minha comunidade. A sensação de inadequação e o comportamento transgressor me acompanham até a idade adulta. No entanto, leitora voraz que sou, fui tropeçando em literaturas que me ajudaram a ter uma visão externa daquilo que vivia como repressão sexual. Foram muitas, mas dentre elas destaco Marina Colasanti, Marilena Chauí, Margaret Mead e Simone de Beauvoir. Suas obras me ajudaram a perceber que uma outra experiência com o feminino era possível.
Sou desencanada com algumas categorizações que os literatos costumam fazer (poesia de mulher, de negro de gay, de pobre etc.). Achar que poesia possui uma categoria me parece uma incompetência crítica, mas se isso vier a acontecer com o livro BORDA, provavelmente estarei entre três ou mais dessas categorias. E a categoria de poesia de mulher será uma delas.
Outo elemento do livro é a fotografia. Como todos de minha geração a máquina fotográfica e a fotografia estiveram presentem em momentos como férias, festas, gravidez, nascimento e crescimento dos filhos. Também haviam, na idos da infância, as fotos escolares e fotos da família, geralmente feitas por fotógrafos profissionais. Tratava-se de um esforço de captura dos momentos supostamente felizes, de registos do tempo, como se a fotografia fosse um testemunho fiel do momento em que foi executada. Desfilar um álbum de fotografias diante dos olhos costuma ser um exercício prazenteiro de memória. Leoni, da banda Kid Abelha, apresenta em seus versos da música Fotografia, que o que fica na fotografia são os laços invisíveis do que havia no momento em que ela foi executada. Vivi esta experiência de maneira satisfatória até que surgissem em mim os primeiros sinais de envelhecimento. Desse ponto, mirar minha fotos tornou-se um exercício doloroso e deslocado. Baudrillard afirma que criar uma imagem consiste em ir retirando do objeto todas as suas dimensões, uma a uma,: peso, o relevo, o perfume, a profundidade, o tempo, a continuidade e o sentido. Acredito que a dor que passei a experimentar diante de minhas fotos antigas evidenciavam essa falta denunciada por Baudrillard. Lúcia Santaella corrobora meus sentimentos em seu livro Imagem: cognição, semiótica, mídia quando afirma que "o enquadramento recorta o real sob um certo ponto de vista, um obturador guilhotina a duração, o fluxo, a continuidade do tempo". Por isso a  temática "fotografia", presente em BORDA, escrito em um momento de incômodo com o envelhecimento, reflete um tanto desse mal estar, desconforto e estranhamento diante do objeto fotografia.
Em novembro de 2017 o BORDA fará três anos, não acompanho a distribuição da Editora mas acredito que não ultrapassa 300 exemplares ao todo. Não daria para viver como escritora profissional com esses números, mas para isso mantenho meu trabalho como professora, que também é uma espaço de contrução de existência e de realização.
Um livro nos lança no estatuto dos escritores mas o que me consolidou e consolida como poeta são as publicações no blog, no facebook, nas antologias, as participações em eventos como os Saraus, o Poesia Falada do SESC Paladium, as apresentações em outras cidades, universidades etc. O retorno é maravilhoso. Hoje um bom poema alcança cerca de 150 curtidas. Fico imaginando 150 pessoas numa sala, lendo poesia. Isso é sensacional. Não há preço para isso.

BAP6: “Há poetas demais, livros demais e poucos leitores“. Na sua opinião, esta reclamação que se ouve/lê com frequência tem fundamento?

NSL: Ser professor é ocupar um lugar a partir de determinado discurso, cheio de méritos e vícios. Por isso talvez eu acredite que enquanto escritores precisamos deixar o trono de autores incompreendidos e nos preocupar e nos colocar em relação com os leitores. Biografia como as de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Raduan Nassar, Falkner, Salinger, Proust, Beckett, Coetzee e tantos outros são maravilhosas mas o Brasil é de fato um pais de poucos leitores e eles não vão se formar sozinhos. E quem melhor que o escritor para levar esse sabor-saber até os leitores potenciais?  São tempos difíceis e o tempo urge. Reclamar da falta de leitores nos deixa com a sensação de que estamos fazendo algo para enfrentar esse problema mas é apenas uma ação vazia. Sou dessas que acreditam que fazer está além da produção masturbatória do gabinete, acredito no papel social do escritor.

BAP7: Como tem sido para você a participação em antologias de poesia? Alguns autores reclamam dos critérios na escolha dos poetas. Outros dizem que ninguém lê antologias. O que você pensa disso?

NSL: Não cabe todo mundo nem em nossos  círculos de amigos, como caberia em uma antologia? Não gasto tempo me aborrecendo com isso. Estou sempre escrevendo. Se me chamam escrevo, se abrem convites eu mando, se não me incluem eu leio, se não gosto não recomendo. E ponto final.

BAP8: Numa postagem lindíssima no facebook, você testemunhou que lê poesia contemporânea de mulheres vivas. Quais são suas autoras preferidas? Escolha três poemas de três autoras contemporâneas para fecharmos nossa entrevista com chave de ouro.

NSL: Puxa, difícil isso. Como disse naquela ocasião, escolher algumas é deixar de fora mil. O facebook me criou a possibilidade maravilhosa de conhecer a poesia de gente viva do Brasil inteiro. Abaixo cito aquelas com quem mais troco no facebook. Mas a lista é interminável.

leio Mariana Botelho
leio Assionara Souza
leio Chris Herrmann
leio Carla Diacov
leio Nívea Sabino
leio Betzaida Mata
leio Ana Elisa Ribeiro
leio Ana Sixx Vieira
leio Silvana Menezes
leio Aden leonardo
leio Paula Fábrio
leio Angélica Freitas
leio Mônica de Aquino
leio Júlia De Carvalho Hansen
leio Bruna Mitrano
leio Ana Martins Marques
leio Simone Andrade Neves
leio Regina Azevedo
leio Micheliny Verunschk
leio Adelaide Do Julinho, a Silvana Guimarães
leio Liria Porto
leio Nydia Bonetti
leio Nina Rizzi
leio Karin Krogh
leio Pâmela Machado
leio Neuza Ladeira
leio Nina Carta
leio Roberta Tostes Daniel
leio Katia Borges
leio Adriana Brunstein
leio Martha Galrão
leio Arlete Franco
leio Zi Reis
leio Tânia Regina Contreiras
leio Laura Cohen
leio Camila Passatuto
leio Thaís V. Manfrini
leio Thais Guimaraes
leio Adriana Aneli Costa Lagrasta
leio Lázara Papandrea
leio Graca Quintao
leio Lia Sena
leio Silvia Maria Ribeiro
leio Myrian Naves
leio Germana Zanettini
leio Regina Dalcastagnè


Destaque de 3 poemas de 3 autoras:

MARIANA BOTELHO
CESARIANA
para Pedro

seus pequenos olhos
cor de aurora represada
ainda que um dia se afastem
ficarão

nessa pequena cicatriz

NEUZA LADEIRA
A DONA DE NADA

A mulher cuida de tudo é chamada dona de que de quem por quê
Dizem dona de casa mulher de fulano
Bem no íntimo sabe que não é dona de nada nem dela mesma
Passa a vida se dedicando à limpeza à cozinha tudo do melhor jeito
Sempre disponível aos íntimos desejos
Agora que escreve este verso está numa ampola cheia de remédios
O amortecimento da raiva da desforra deve ser detido a borracha tem que ser passada
Como?
Nela aqui sem vida com dor
Os cabelos como fios de arame sem cor naquele branco encardido
As rugas se amontoando num rosto que foi belo
Nada além de olhos estranhos e mente enrolada
Perguntam ou dão conselhos
Marido bom trabalhador casa arrumada
O que mais vai querer?

ANA ELISA RIBEIRO
DESORIENTAÇÃO

levo cinco luas minguantes
pra remendar
um afeto partido

outras cinco luas crescentes
pra curar
amor vivido

e estes amores
que não dão certo
levo séculos,

a céu aberto,
tentando ver
onde mesmo
estava a lua



__ entrevista realizada por
Chris Herrmann e Adriana Aneli


 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Reminiscências do passado




Pensando, pensando e repensando eu disse a mim mesma:

- Nida, que tal fazer uma retrospectiva da sua vida e voltar aos 35 ou 40 anos?! Talvez exista algo para ser lembrado...

Sim, vivendo uma vida cheia de esperanças – mãe feliz, esposa alegre, realizada – eis que se aproxima o meu aniversário. Acostumada a ser presenteada regiamente pelo meu marido querido, com presentes bem escolhidos , carinhosamente escolhidos, eu, esposa mimada (sim, muito mimada) fico à espera  do dia e da hora do meu aniversário! Que alegria! Que felicidade!...

Mas eis que finalmente chega a hora da entrega do tão aguardado “presente”; após beijos e abraços, os votos de augúrios, de perene felicidade... Recebo uma linda caixa envolta em belíssimo papel... Desfaço as fitas vermelhas flamejantes... Abro e vejo um livro em italiano...  de receitas culinárias!

- TALISMANO DELLA FELICITÀ – e que decepção!

Zanguei-me no instante que o vi. Reclamei. Desiludi-me realmente ao me sentir uma mulher que inspirava do meu marido apenas o estômago! Mais nada. Absolutamente nada à sua alma e coração.

Conceitos tolos; conceitos tolos de uma mulher mimada que não soube discernir e ponderar o verdadeiro sentimento o de amor e delicadeza que aquela doação representava.

- Obrigada, marido!

Para minha sorte, eu logo percebi o meu erro e caímos às gargalhadas nos beijando e abraçando, compartilhando com nossa filha este momento hilário da nossa existência em comum.

Agradeço a Deus pela alegria que esta lembrança me proporcionou. 



Até mais, meus leitores! E obrigada!

Nida










NIDA DEL GUERRA FERIOLI (96 anos) é Conciliadora e Mediadora de Conflitos (formada em 2014);  Professora de italiano; Autora dos livros “Vivendo a Vida” e "Le Ricordanze" . Colunista do “Papos de Anjo”, na página literária Boca a Penas (BAP).
É mãe de Eliane, avó de Marcello e Valeria e bisavó de Thais e Maitê.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Homenagem ao João (Baptista da Costa Aguiar)

Cerimônia do Adeus




A morte nos visita e o João foi embora com ela, depois de prolongada tristeza.

De nada adiantaram solicitações de trabalho pelo Facebook, durante os últimos meses: o silêncio fingido acabou por mantê-lo esquecido e doente.

Sebastião, o cunhado Antônio, as irmãs e mais alguns amigos serviram-lhe de conforto; pouco.

João foi um dos melhores amigos e o melhor dos designers, ao menos ao que me consta, por trabalhos desde o primeiro em 1963, ao desenhar a capa do livro de contos “abecedário”, editado 50 anos depois; os desenhos de corpo inteiro do livro de poemas, “Ópera Bufa” (2007) e do ensaio fotográfico, “Desmedida Segurança – a prisão dos réus absolvidos” (2009), inédito; palpitante nas artes do “Dicionário de Direito de Família”, lançado em 2013; no projeto gráfico do coletivo “Sobre Lagartas e Borboletas” (2015) e, por fim, capista de minha narrativa, também inédita: “Brás – fábricas mortas” (2016); por fim, logomarcas do Tubapbooks e do escritório Zago E Lagrasta.

Mas, João era um “Senhor... - em seu receituário de chef de cozinha e barman - ... Prendado”, ao promover regabofes entre amigos à mesa farta ou no “Star City”, nas feijoadas de sábado ou de qualquer dia; reminiscências do “Barquinho” da Av. Santo Amaro, com Dácio Aranha de Arruda Campos e seguidores, nas incontáveis doses de “caipirinhas”.

Desde os idos de 60, é certo, João sempre amou biritar e ser o conversador de excepcional verve e irrepreensível humor.

Maior glória foi receber o primeiro autógrafo da vida de João, em seu livro  Desenho gráfico  que narra a trajetória do Artista, desde as capas, logotipos (Cia. das Letras e seus selos e letrinhas), além da belíssima campanha publicitária de Luiza Erundina, Prefeita de São Paulo etc. 

João não tergiversava: em tudo ele era aquilo, aquilo mesmo que ele contava, seja no contato, na família ou na política, sem arredar unha de convicções ou teimosias e no amor aos netos.

Vai-se o amigo João e choram rimas - ainda que contra sua vontade - de que tudo continue numa grande festa no céu, ou no primeiro balcão em que ele ancorar aos bebericos e espalhar, estrepitoso, gargalhadas.

Saudade imensa, é tudo...

Caetano Lagrasta