quarta-feira, 11 de outubro de 2017

TARJA PRETA


Não tenho dúvidas, para ler Daniel Velloso é preciso receita.

Começando pelo excelente projeto gráfico da Scenarium, o livro merece uma exposição e, se possível, uma internação.

Ao contrário do autor, não é um livro que nasceu de oito meses, nele dá pra perceber que lá se vão alguns anos de luta com ideias e repelões a estas.  Grande mergulho no negrume subjetivo de nossas próprias tristezas e mal-entendidos.

- Ah, então o livro é triste?

- Porra nenhuma, o livro é um salto no “precipício ao início”, para usar seu arremate ao título.

Tem cabeça no ombro, no travesseiro, virar pro lado e continuar a sonhar; tem esquizografias, esquizofrenias e dores do mundo; tem de tudo agasalhado por avalanche inigualável de palavras, conceitos, gemidos, sussurros e de onde se escapa o desmaiado esboço da figura do autor.

- O autor?
...
- Perdido num emaranhado de Amor, Sentimento, Exclusões, Achados e Perdidos, assim vai...

Há Rivotril – as tais pílulas de merda – e mulher-violão desfilando por recônditos desejos naquela praia iluminada pela alegria dos outros, sem esquecer os pintores de rodapé e choros convulsos no escurinho com Natalie Porter.

Há também o silêncio desejado-fingido-do-passeante, diante das criancinhas que dormem sobre folhas de jornal e se cagam diante do mundo acanalhado-burguês a desfilar seus consumos, educações e formalidades, enquanto se prepara para o mais recente assalto aos cofres públicos.

Mas, há que ir à confissão shopenhauriana, de pessoas sempre amáveis a tocar nas feridas alheias, a gritar suas verdades vorazes, esbravejando seus manuais de vida, com remate de último recado:

Acho que você leu e nem percebeu. E agora? O livro acabou...

Ops, mas tem ainda um resto de toco, um toco sozinho, um recadinho mordaz:


Já morri de amor,
já morri de rir,
já morri...


Já?







Caetano Lagrasta,

ao sair da terapia de apoio, em 10 outubro de 2017

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